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Indústria de robôs não conhece quem vai usar seus robôs

Robótica corporificada

Ante a crescente preocupação com a importância que as inteligências artificiais estão assumindo rapidamente, pesquisadores europeus decidiram analisar a questão por um outro lado: a incompatibilidade nas visões e expectativas daqueles que fabricam robôs e daqueles cuja vida será afetada por eles.

E a equipe se voltou sobretudo para aquela robótica mais tradicional, que permeia o imaginário popular - a robótica na qual a inteligência artificial está corporificada em um equipamento mecatrônico, não raramente um robô que tenta imitar a aparência de um ser vivo.

Para isso, eles estudaram detalhadamente 11 robôs que estão sendo desenvolvidos em diversas instituições e empresas europeias, incluindo robôs para uso na área de saúde, cuidados pessoais, agricultura e indústria.

"É hora de falar sobre as vantagens e os problemas, e sobre os requisitos que devem ser atendidos para garantir que nossos robôs sejam os melhores possíveis," justifica Cathrine Hasse, da Universidade Aarhus, na Dinamarca.

Quem são os usuários dos robôs

Curiosamente, o principal resultado do levantamento, que incluiu entrevistas com centenas de profissionais, é uma peculiar incompreensão de quem serão os usuários dos robôs.

Os fabricantes de robôs tendem a considerar que os possíveis compradores de seus produtos serão os usuários finais e, é claro, eles podem ser, mas geralmente não são.

As decisões de compra de robôs adotados em hospitais, por exemplo, normalmente não são tomadas pelos profissionais diretamente envolvidos - médicos e enfermeiros, por exemplo - e menos ainda pelos pacientes.

E mesmo os usuários finais reais não são os únicos indivíduos para os quais um novo robô terá implicações.

Isso está longe de ser uma questão teórica, explica a professora Hasse, porque quem está participando do projeto dos robôs e influenciando o modo como eles deverão agir, se parecer e se comportar, não são os principais interessados.

Se os usuários finais pretendidos são alunos de uma escola, por exemplo, a tecnologia também afeta os professores que serão chamados a ajudar as crianças a se envolver com ela, exemplifica Hasse, acrescentando que, no momento, as opiniões dessas partes interessadas estão sendo negligenciadas no processo de design.

Além disso, pessoas cujos empregos podem ser alterados ou perdidos para robôs, por exemplo, poderão nunca interagir com a inovação. E, no entanto, suas preocupações são centrais para os desafios econômicos relacionados aos robôs potencialmente enfrentados pelos formuladores de políticas e pela sociedade como um todo.

Modelo proposto pela equipe para guiar os técnicos em sua busca pela viabilização dos seus robôs.

Decepção com a robótica

A equipe acredita que esse desconhecimento por parte da indústria possa ser uma das causas pelas quais, de forma um tanto decepcionante, os robôs estão longe de assumirem a corporeidade que se esperava deles.

"Muitos projetos de robótica estão na verdade sendo arquivados," disse Hasse. "É claro que é da natureza dos experimentos que eles nem sempre deem certo, mas com base nos casos que pudemos observar, acreditamos que muitas falhas poderiam ser evitadas se toda a situação com os usuários e as partes diretamente afetadas fosse levada em consideração."

Uma das recomendações fundamentais feitas pela equipe para lidar com a questão é incluir antropólogos, psicólogos e filósofos nas equipes de especialistas técnicos que atualmente lidam com o projeto dos robôs, hoje geralmente formada apenas por especialistas em engenharia, economia e negócios.

"Acreditamos que todos podem ganhar com esse tipo de pesquisa etnográfica e que isso pode levar a melhores tecnologias e impulsionar a adoção dessas tecnologias," finalizou Hasse.